ENEM 2021 · Linguagens · Questão 32
Singular ocorrência
— Há ocorrências bem singulares. Está vendo aquela dama que vai entrando na igreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola. — De preto? — Justamente; lá vai entrando; entrou. — Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que a dama é uma ecordação de outro tempo, e não há de ser muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de truz. — Deve ter quarenta e seis anos. — Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão e conte-me tudo. Está viúva, naturalmente? — Não. — Bem; o marido ainda vive. É velho? — Não é casada. — Solteira? — Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria de tal. Em 1860 florescia com o nome familiar de Marocas. Não era costureira, nem proprietária, nem mestra de meninas; vá excluindo as profissões e chegará lá. Morava na Rua do Sacramento. Já então era esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa.
ASSIS, M. **Machado de Assis**: seus 30 melhores contos. Rio de Janeiro: Aguilar, 1961.
No diálogo, descortinam-se aspectos da condição da mulher em meados do século XIX. O ponto de vista dos personagens manifesta conceitos segundo os quais a mulher
- A encontra um modo de dignificar-se na prática da caridade.
- B preserva a aparência jovem conforme seu estilo de vida.
- C condiciona seu bem-estar à estabilidade do casamento.
- D tem sua identidade e seu lugar referendados pelo homem.
- E renuncia à sua participação no mercado de trabalho.